Quando uma mulher encontra na barbearia acolhimento

O resultado é o Barbeiragem: um documentário que mostra como as barbearias contribuem para a inovação estética e cultural da comunidade.

“Mulher sem cabelo? Assim você nunca vai arrumar um marido!”. “Vai ficar horrorosa.” “Cabelo é a moldura do rosto, menina.” Era mais ou menos isso que Gessica Justino ouvia quando ia aos salões de beleza e pedia pra cortar o cabelo com máquina zero, corte que ela usa há uns 8 anos. “As pessoas se assustavam quando eu chegava pedindo pra raspar, até chegavam a machucar o meu couro cabeludo, me ferindo mesmo”, conta ela sobre a saga que era achar um salão que atendesse a seus pedidos…

Foi aí que, despretensiosamente passando em frente a uma barbearia na comunidade de Pedregulho, próxima à Mangueira, ela viu uma cena familiar que atraiu sua atenção: “Era uma confusão, um cara sem camisa cortando cabelo, gente gorda, magra, mulher falando alto… Me senti no quintal da casa onde cresci, aquela confusão, as mulheres fazendo unha e lavando roupa suja”. O cabelo tava grande, ela decidiu entrar pra cortar e, pronto, ali começava a nascer a ideia pro projeto “Barbeiragem”.

“A partir daquele momento, as barbearias de favela se tornaram pra mim um lugar de afeto e acolhimento. Antes, nos salões que eu ia, além de ter que passar pelo constrangimento de insistir por algo que eu ia pagar, eu não sentia qualquer relação afetiva… Aquele afeto me despertou e vi que tinha que documentar isso de alguma forma”, conta Gessica, formada em dança e desde sempre ligada a trabalhos e projetos de cultura popular.

Voltando ao “Barbeiragem”, projeto de uma série de TV documental (e bastante apelo estético), ele tomou forma mesmo quando ela conheceu dois barbeiros que mudaram sua vida: Papinho e Mineiro. Este último, autodidata, corta cabelo há mais de 25 anos na Mangueira e inspira Papinho, que aprendeu tudo que sabe com o amigo.

Inicialmente, ela pretende contar a história de seus dois amigos (“falo com ele todos os dias, mais até do que falo com minha mãe”), e depois pretende ampliar para a de outros barbeiros do Rio de Janeiro e até de alguns países da África.

“Precisava contar a história do Mineiro, que é um homem negro, que conseguiu passar dos 30 anos vivendo em uma favela. Qual barbeiragem que ele fez na vida para estar nesse lugar, sobrevivente, vendo todos os amigos de adolescência morrer, e ainda ter fé na vida?”

O piloto do programa vai ser exibido no festival Rider, nos dias 18/3, 25/3, 1/4 e 8/4, no Rio. Nessas datas também, Gessica e os barbeiros vão participar de uma instalação, mais precisamente um barbearia multimídia, em que as pessoas poderão ouvir música e ver vídeos enquanto cortam cabelo e barba.

Música, inclusive, é o que faz Gessica produzir. “Ouço muita música em casa, fazendo tudo. Preciso ter música, voz ou algum barulho pra conseguir trabalhar! Aliás, tenho um TOC, que é fazer um mashup do que vou ouvindo na rua, então se passo num bar e ouço uma música, vou cantando ela até ouvir a próxima, seja ela de um carro, de uma loja… Acabo fazendo uma playlist na minha própria cabeça”.

Mas a playlist que ela ouve mesmo tá aqui! Aperte o play e inspire-se!

Samuel Tonin

Samuel Tonin

Um nerd que curte escrever umas paradas, editar uns vídeos, tomar uns cafés, passar dias de chuva jogando videogame e fundador da Sobrebarba.

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