A reinvenção da vida entre poeira, livros e muito jazz

Depois de 25 anos nas maiores redações dos mais importantes jornais e revistas do país, o jornalista Ricardo Lombardi foi se entocar em uma garagem de 18 metros quadrados em Pinheiros (SP), para, assim, tentar expandir — ao menos nas suas possibilidades.

Nos últimos quase 3 anos, é nesse exíguo buraquinho que ele toca o sebo Desculpe a Poeira, que reúne preciosidades em formato de livros, revistas, HQs, discos e DVDs — uma coleção de 5 mil itens catalogados, grande parte vinda da coleção do próprio jornalista e empresário. A inspiração para o nome do empreendimento, ele conta no site do sebo, veio da frase que a crítica e escritora americana Dorothy Parker sugeriu para o seu epitáfio: “Excuse my dust”.

“Quando decidi que precisava mudar de área, estava executando uma função de gestão, mais administrador do que propriamente jornalista, e isso me deixava meio desanimado. Não era muito a minha praia e, se eu quisesse continuar na profissão, teria que engolir aqueles sapos”, explica o barbudo.

“Pensei num plano B que fosse uma ‘edícula’ do plano A, que era o jornalismo, ou seja, ainda que pareça meio anacrônico, trata-se de conteúdo. Tenho que selecionar o tempo todo, editar o que vou expor na minha loja. Não é como se eu tivesse um bar nem uma loja de parafuso…”

A ideia de apostar especificamente num sebo veio numa viagem de 2013 pra Buenos Aires, cidade em que os negócios bem pequenos resistem, uma tradição vinda dos europeus. “Estava hospedado em cima de um lugar que era bem pequeno e daí tive o insight. É algo possível, ninguém vai enriquecer, mas dá pra pagar as contas.”

Além das vendas na loja física, Ricardo negocia muita coisa online, seja pelo Mercado Livre ou pelo sebo Estante Virtual, mas também muito pelo perfil no Instagram, onde posta quase diariamente frases, trechos e imagens dos principais destaques do acervo. Por falar em destaque, já pintaram por lá algumas joias, como um livro autografado por Henfil, obras raras de Machados de Assis, revistas “Playboy” dos anos 70, um compacto raro de Tim Maia, “coisas fora de catálogo, coisas que foram consideradas boas há 20, 30 anos atrás…”

No meio disso tudo, ele lembra ter topado com revistas masculinas, a exemplo da “Esquire”, que tinha um livro de etiquetas recheado de dicas para o moderno homem de décadas passadas se cuidar melhor, escolher o sapatos e selecionar os utensílios para os cuidados pessoais e da barba.

“Geralmente, coloco tudo pra vender, e o máximo que faço é dar uma lida antes, porque a tendência pra acumular é muita. Tem que exercitar o desapego.”

NOVA ROTINA
“Hoje sou o dono do meu nariz e, se quiser, fecho uma hora mais cedo pra pegar os filhos na escola. Tinha época que mal via meus filhos.”

Se a rotina mudou bastante, uma parte (boa) da época de redação se manteve: “Jornalismo é a essência de conhecer pessoas diferentes e entrar na vida delas. Aqui, muita gente vem atrás de presentes, de autores desconhecidos, querem minha opinião a respeito de determinado livro, querem leitura pra quando forem viajar de férias…”

Tal garimpo diário é embalado por uma trilha sonora bem específica: jazz, música clássica, piano, ópera, Bob Dylan, Leonard Cohen, Johnny Cash…

“São músicas que rolam o tempo todo aqui, sempre mais antigas, não necessariamente barulhentas ou pop, mas que remetem a um momento específico da vida das pessoas. Acho que combinam com o astral de quem tá fuçando num sebo…”

Pra saber mesmo, só apertando o play.

Samuel Tonin

Samuel Tonin

Um nerd que curte escrever umas paradas, editar uns vídeos, tomar uns cafés, passar dias de chuva jogando videogame e fundador da Sobrebarba.

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